domingo, 18 de maio de 2008
"Alguém afirmou uma vez que de toda gente que conhecia só havia uma que não contava piadas porcas - era eu. Quanto a ti, quer sejas juiz ou chefe da polícia, conheço as tuas piadas porcas e sei de onde vêm, de modo que é melhor não abrires a boca".
Escuta, Zé Ninguém! - Willhelm Reich
[por "Elfen Queen", às 20:31]
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Eis aqui a defesa do talvez mais cruel de todos os agentes de punição: o torturador e o carrasco.
Por Joseph De Maistre
"Um sinal sombrio é dado: um servil oficial de justiça bate à sua porta e informa que o mandaram buscar; ele se apronta e chega à praça pública, que está repleta com uma multidão ávida e excitada. Um prisioneiro ou um assassino ou um blasfemador lhe é entregue. Agarra-o, estende-o e o amarra numa cruz horizontal, ergue o braço e terrível silêncio se faz. Nada se ouve a não ser o clamor dos ossos estalando sob a pesada haste e os urros da vítima. Então ele o desamarra e o conduz à roda, os membros partidos são contorcidos nos raios, a cabeça pende; o cabelo se desalinha, e da boca, escancarada como um fogão, saem agora apenas poucas palavras sangrentas que, em intervalos, clamam pela morte. Agora o carrasco terminou seu trabalho; seu coração bate, mas é de alegria; ele se vangloria e diz de todo coração: 'Ninguém é melhor na roda do que eu'. Desce e ergue sua mão manchada de sangue, e a Justiça lhe joga à distância alguns pedaços de ouro que leva consigo através de uma ala dupla de pessoas, que se afastam horrorizadas. Senta-se à mesa e come, deita-se e dorme. Ao acordar, no dia seguinte, pensa sobre coisas totalmente diferentes do trabalho realizado no dia anterior... Toda grandeza, todo poder, toda disciplina fica canalizada no carrasco. É o horror da sociedade humana e o vínculo que a une. Tirem do mundo este agente incompreensível e, nesse exato momento, a ordem dará lugar ao caos, os tronos ruirão e a sociedade se dissipará. Deus, que é a fonte de toda sabedoria, também é a fonte do castigo".
Comentário de B. F. Skinner, em "O mito da liberdade", a respeito do trecho acima: " Embora existam melhores caminhos, as literaturas da liberdade e dignidade não os indicam".
Brilhante! [Visitem o Elfen Queen II]
[por "Elfen Queen", às 21:37]
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
- Ispirada por um amigo, resolvi postar isso:
(aliás, estamos nos inspirando bastante nos últimos tempos)

SIDARTA GAUTAMA "Não creiam pela fé das tradições, embora elas sejam honradas há muitas gerações e em muitos lugares. Não acreditem em uma coisa porque muitos falam dela. Não creiam pela fé dos sábios dos tempos passados. Não creiam naquilo que vocês imaginaram, pensando que um deus os tenha inspirado. Não julguem nada pela autoridade dos seus mestres ou sacerdotes. Após examinar, acreditem apenas naquilo que vocês mesmos tenham experimentado e reconhecido como razoável, que será conveniente para o seu bem e para o dos outros."
[Buda]
[por "Elfen Queen", às 20:07]
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Juvenal era o louquinho da cidade. Desde seu nascimento havia algo de errado com o infante. Ele demorou a firmar a cabeça, demorou a sentar, a andar e a falar. E seus pais demoraram a perceber isso, já que estavam muito ocupados com coisas mais importantes. No primeiro dia de aula de Juvenal veio o diagnóstico da professora: RETARDADO. A professora Francisca era mestre em dar diagnósticos desse tipo, uma especialista! Depois disso vieram as consultas médicas, psicológicas e a bateria de exames que não apontaram nenhuma alteração anatômico-cerebral ou psicofisiológica mas, que de acordo com os examinadores, mesmo assim confirmavam o diagnóstico da professora que colocava mais um caso no seu rol de diagnósticos a olho clínico. Os pais de Juvenal tiveram que aceitar a dura realidade: agora eram os pais do menino retardado que não se enturmava com os coleginhas e não conseguia controlar seus esfíncteres. O menino franzino e corcunda era apontado na rua quando saia com seus pais pelos dedos íntegros e "higienistas" das senhoras de bem da pacata cidade de Retidão dos Passos. Quando saia sozinho (entende-se sair sozinho por abrir o portão e sentar-se na calçada), Juvenal era atingido por pelo menos 5 pedras (isso, em dias de sorte) atiradas pelas crianças limpinhas e educadas, os filhos das senhoras de bem dos indicadores puros. As senhoras de Retidão dos Passos cumpriam brilhantemente seu papel de educadoras, ensinando desde cedo aos seus filhos o que era certo e errado. Juvenal foi crescendo sozinho, ausente fisicamente das outras crianças e emocionalmente de seus pais, que tiveram que conviver com o peso do castigo divino oriundo de uma concepção trágica e irreversível. Mesmo sem freqüentar a escola, o menino estranho de Retidão dos Passos teve acesso a livros e conseguiu aprender a ler e a escrever sozinho. Ele também aprendeu a tocar flauta e violão com a precisão de um músico profissional. Ele passava horas sozinho lendo e tocando, enquanto seus pais passavam o dia todo fora trabalhando para poderem comprar os remédios caros e inúteis de Juvenal. Eles nem mesmo conheciam as habilidades do garoto. Aos 14 anos de idade Juvenal já era um mocinho com características sexuais secundárias, mas seu olhar distante e com ares de estupidez denunciava sua debilidade. Aos 18, ele queria freqüentar a missa como ele via, através das grades da janela de sua casa, todos os moços de sua idade fazer, mas seus pais tinham medo e vergonha de permitir uma afronta dessa à digna sociedade de Retidão dos Passos. No dia em que Juvenal completou 26 anos de idade sua mãe, Dona Margarida, lhe deu um presente inesquecível. Ela se suicidou com uma overdose de remédios por não agüentar o peso de suportar Juvenal e a culpa por não poder dar um filho normal a seu marido. Juvenal não entendeu muito bem o que estava acontecendo quando viu sua mãe estirada no chão com um tom arroxeado e pútrido e seu pai aos berros. Mas ele conseguiu entender bem dois dias depois do funeral, quando seu pai o abandonou na Casa de Higiene Mental da cidade vizinha. Fora a última vez em que pai e filho se viram. Seu Tarcísio nunca foi visitar o filho e Juvenal nunca mais teve notícias do pai, nem mesmo soube que ele se casou novamente três meses depois e que lhe dera dois irmãos saudáveis, limpos e educados. Juvenal passou o resto de sua vida com o corpo presente na Casa de Higiene Mental, ou simplesmente Auschwitz, como muitos denominariam pandegamente. Entretanto, sua mente viajava por lugares e dimensões nunca antes conhecidas. Lá ele encontrou semelhantes e diferentes, repressão e liberdade, tudo ao mesmo tempo. Lá ele pôde entender muitas coisas incompreensíveis à honrada sociedade de sua cidade natal. Juvenal morreu com 45 anos de idade por uma enfermidade chamada "remedinho na comida", que servia para exterminar aqueles cujos parentes sumiam ou quando havia superlotação na instituição. Junto com ele foram mais 16. Chegava ao fim a história de maior vergonha para o decoro da cidade. Dez anos depois, os cidadãos de Retidão dos Passos ficaram sabendo da morte de Juvenal através de uma ex-enfermeira do sanatório. Todos ficaram aliviados e se utilizaram desse excelente exemplo para educar as novas crianças da cidade. Foram desenvolvidos métodos tradicionais de ensino à luz da estória de Juvenal. Alguns desses métodos foram perfeitamente utilizados em frases do tipo: "Se não comer tudo, o Juvenal vai vir te pegar". "Se a mocinha for desonrada, terá um filho como o Juvenal", dentre outras. Até hoje esses métodos educacionais perduram e os pais os executam com maestria, mantendo assim a tradição e o orgulho da cidade.
Essa era a visão de Retidão dos Passos sobre Juvenal. Mas pelo prisma de uma sociedade sem padrões de normalidade, Juvenal seria "classificado" (com o perdão da palavra) como um ser humano "normal" (mais uma vez pedindo perdão pela palavra). Até quando, como aponta Deleuze, vamos espraiar os tentáculos do hospício por toda parte?
[por "Elfen Queen", às 21:49]
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
 "Um homem com um toque de gênio terá tamanha probabilidade de atacar as instituições existentes, que ele será chamado de desequilibrado ou neurótico. Os únicos gênios produzidos pelo caos da sociedade são os que fizeram alguma coisa a respeito. O caos alimenta o gênio. Oferece ao homem algo a respeito do qual se tornar um gênio".
(B.F. Skinner, Walden II)
* Resolvi dar outra chance a Skinner e ele conseguiu me impressionar.
[por "Elfen Queen", às 16:28]
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Eu sempre fui muito sensível a certas contingências de reforço social, mas experimento o verdadeiro sentido de operação estabelecedora uma vez por mês. Apesar do ego ferido, mantenho meu auto-respeito e a maioria das minhas opiniões.
Como as coisas ficam maiores nessa época, não!?
[por "Elfen Queen", às 18:41]
sexta-feira, 30 de novembro de 2007

"EU VOS DIGO: É PRECISO TER AINDA CAOS DENTRO DE SI, PARA PODER DAR À LUZ UMA ESTRELA DANÇARINA. EU VOS DIGO: AINDA HÁ CAOS DENTRO DE VÓS!"
(F. Nietzsche)
[por "Elfen Queen", às 17:40]
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
"Nunca me adaptei a vida de estudante. Ingressei numa fraternidade acadêmica sem saber do que se tratava. Não era bom nos esportes e sofria muito quando as minhas canelas eram atingidas no hóquei sobre o gelo ou quando melhores jogadores de basquete faziam tabela na minha cabeça... Num artigo que escrevi no final do meu ano de calouro, reclamei de que o colégio me obrigava a cumprir exigências desnecessárias (uma delas era a presença diária na capela) e que quase nenhum interesse intelectual era demonstrado pela maioria dos alunos. No meu último ano, eu era um rebelde declarado".
(Burrhus Frederic Skinner)
* Sentimento de inadaptação, falta de habilidade para esportes, reclamações sobre a obrigação de cumprir exigências desnecessárias e rebeldia declarada... Que coisa mais parecida comigo!
[por "Elfen Queen", às 20:31]
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
"The problem of far greater importance remains to be solved. Rather than build a world in which we shall all live well, we must stop building one in which it will be impossible to live at all."
(B. F. Skinner, 1989)
[por "Elfen Queen", às 20:05]
domingo, 7 de outubro de 2007
:: Aproveitando as minhas últimas postagens "psicológicas", deixo aqui a entrevista concedida por B.F. SKINNER à Revista Veja em 1983. Nessa entrevista ele anuncia o futuro trágico que ele enxerga para a humanidade se as coisas continuarem como estão. Praticamente um "Year Zero"!
- Entrevista: B.F. SKINNER - Revista Veja, 15 de junho de 1983
O grande papa da ciência do comportamento identifica em problemas como a ameaça nuclear ou a superpopulação perigos inéditos para o mundo. Com suas teorias pioneiras sobre o comportamento humano e as possibilidades de seu controle, nos anos 50 e 60, ele não ficou apenas célebre: chegou a ser comparado a Freud. Professor da Universidade de Harvard e expoente máximo da psicologia americana, B.F. Skinner (B. de Burrhus e F. de Frederic) é o grande papa da chamada ?ciência do comportamento?, o Behaviorismo. Em síntese, suas idéias sugerem que tudo pode ser perfeitamente previsível e, portanto, perfeitamente controlável no comportamento humano. Não é o indivíduo que controla o meio ambiente, e sim o contrário ? este é o ponto de partida de sua teoria. Sendo assim, o homem reagiria a estímulos ? da mesma forma que um rato, num laboratório, apresenta reações de medo ou satisfação, violência ou docilidade, desde que adequadamente estimulado.
*(BEM, NA VERDADE AS COISAS NÃO SÃO BEM ASSIM, ESSA É UMA EXPLICAÇÃO MUITO SIMPLISTA, MAS NÃO VOU ENTRAR NESSA QUESTÃO AGORA)
As idéias de Skinner propunham uma revolução nas ciências humanas ? e jamais, desde que foram enunciadas, deixaram de provocar polêmicas. Alguns saudaram, na sua sugestão de que o indivíduo poderia ser induzido a agir de forma positiva ou negativa, uma vez convenientemente levado a uma ou outra direção, a possibilidade de surgimento de um homem novo. Outros, porém, logo suspeitaram nas técnicas de controle por ele formuladas um ranço totalitário capaz de produzir regimes tirânicos. Nos últimos meses, e agora já quase lendário aos 79 anos, B.F. Skinner voltou a freqüentar as paginas dos jornais com uma mensagem alarmista: a espécie humana, repete ele, caminha para a extinção. Ao mesmo tempo, ele cativa audiências ao aplicar sua controvertida técnica de controle do comportamento contra um inimigo universalmente detestado: a velhice, tema de seu ultimo livro, prestes a ser publicado, Vivendo bem a velhice. Skinner, na verdade, apresenta-se como a melhor propaganda do método que anuncia: quase octogenário, ele ainda trabalha diariamente em seu escritório de Harvard e viaja pelo mundo todo para conferências.
VEJA- O senhor sempre afirmou que o avanço nas ciências humanas, sobretudo na psicologia, abriria caminho para uma civilização mais avançada, quase utópica, mas, ultimamente, tem parecido muito pessimista. O que mudou?
SKINNER- Ainda acredito que as técnicas de mudança de comportamento permitem um progresso grande, particularmente em áreas específicas, como o uso da educação programada nas escolas para acelerar a aprendizagem, a criação de sistemas de incentivo na indústria para aumentar a produtividade e, naturalmente, em psicoterapia. Nesse sentido, o behaviorismo, ao esclarecer como o homem age em função de estímulos positivos ou negativos, pode ter um impacto positivo, no futuro imediato, contribuindo para uma sociedade mais bem informada, rica e satisfeita. Mas estamos ameaçados pelas conseqüências que nossas ações atuais, como corpo social, terão no futuro distante. E é por isso que estou tão pessimista. O mundo está caminhando para o desastre, confrontando com problemas em escala inédita.
VEJA- Que problemas são esses?
SKINNER- A superpopulação, por exemplo. Parece óbvio para qualquer pessoa sensata que há um limite para a quantidade de seres humanos que podem viver no planeta, mas não se está fazendo um esforço sério para lidar com a questão. Temos 4,5 bilhões de pessoas, pelo menos metade das quais subnutridas ? e, como não estamos conseguindo resolver o problema delas, nada indica que os outros bilhões que virão terão sorte muito diferente. Estamos destruindo o meio ambiente, consumindo recursos naturais em ritmo mais rápido do que eles se repõem. Todos os estudos científicos mostram que estas práticas, hoje, levam ao desastre, mas não estamos tentando seriamente promover mudanças. E, pior de tudo, há a ameaça nuclear. È mais do que óbvia a necessidade de conter o arsenal nuclear, mas um balanço das últimas décadas mostra que não estamos tendo sucesso nesse sentido. Pelo contrário, do jeito que as coisas vão, parece cada vez mais improvável que as potências cedam na resolução de conflitos.
VEJA- Ao longo da história, a raça humana superou variadas espécies de conjunturas desfavoráveis que pareciam, à época, insolúveis. Por que não resolveríamos os problemas, desta vez?
SKINNER- Este argumento é como consolar um doente que está morrendo lembrando que, afinal, ele esteve doente outras vezes e sempre se recuperou. O mundo pode estar chegando a uma condição única, em que pela primeira vez, na história, está de fato morrendo ? e não estamos fazendo nada para salvá-lo.
VEJA- Movimentos como o pacifista e o ecológico não mostram uma consciência nova sobre os problemas que o senhor aponta? Já não estaria havendo algum progresso, sobretudo na preservação do meio ambiente?
SKINNER- Alguns setores da população, o chamado ?quarto estado?, que engloba cientistas, professores, profissionais da informação e intelectuais em geral ? em relação aos três estados tradicionalmente dominantes: governo, igreja e empresariado -, realmente dão sinais de consciência do problema. Fazem-se passeatas, manifestos. Mas não é assim que se consegue mudar o comportamento de 4,5 bilhões de pessoas. Se você falar com a maioria dos acadêmicos aqui em Cambridge, eles reconhecerão que é um absurdo uma pessoa ir de carro particular até Boston, desperdiçando gasolina e poluindo o ar, quando poderia muito bem tomar o metrô. Mas o único jeito de fazer com que as pessoas realmente tomassem o metrô seria se o governo as induzisse a isto, cobrando pedágios bem mais caros no túnel para Boston, por exemplo. Porque a única forma de promover as mudanças necessárias e com a rapidez necessária ? isto é, controlar o crescimento demográfico, promover estilos de vida mais simples, com menos desperdício e prejuízo para o meio ambiente -, seria se a indústria, a igreja ou o governo, os que têm poder, se dispusessem a implementá-las.
VEJA- Mas pelo menos nos casos das democracias, não é verdade que os governos e mesmo a indústria costumam ser induzidos a promover mudanças quando elas se tornam indispensáveis?
SKINNER- Acho que os detentores do poder econômico, os que têm dinheiro, vão continuar a usá-lo para produzir lucros rápidos, sem qualquer preocupação com os problemas globais. As coisas a este nível são tão pouco planejadas que um país como o México pode ir à bancarrota de repente, e pegar o mundo financeiro desprevenido. Quanto aos políticos, eles estão sempre preocupados com a próxima eleição e, portanto, indispostos a pregar sacrifícios hoje, para preservar o futuro. Durante o momento mais crítico da crise energética, alguns países impuseram limites no consumo de petróleo, mas, tão logo passada a emergência, voltamos aos velhos hábitos, embora a ameaça de escassez continue presente. Deveríamos ter leis severas para favorecer o transporte público, manter baixa a temperatura dos aquecedores no inverno e limitar o uso dos aparelhos de ar-condicionado no verão ? isto em base permanente. Mas o problema é que os políticos não querem o ônus de um programa necessariamente impopular e nossa sociedade está voltada para a gratificação imediata, o conforto absoluto. Chegamos a um ponto em que se tornou imperativo tomar medidas para preservar o planeta e a espécie. E não estamos fazendo isto.
VEJA- Mas existe alguma fórmula para fazer com que as pessoas aceitem o sacrifício? É possível sensibilizá-las para este futuro distante?
SKINNER- É característico da espécie humana agir em função apenas do futuro mais próximo e da experiência passada. Porque o futuro mais distante não existe, no sentido de que não foi experimentando. Ninguém toma uma estrada desconhecida sem razão. Se entrar nela é porque lhe disseram que tem paisagem bonita, ou que tem alguma vantagem sobre as outras. Da mesma forma, o homem não faz nada sem uma expectativa, um estímulo que encoraje ou desencoraje seu comportamento. Sobretudo quando é algo para o futuro distante. Instituições como a igreja, governo e indústria sempre usaram estes reforços de comportamento para fazer com que as pessoas trabalhassem para o futuro. A indústria acena com a recompensa do salário para que seus empregados produzam. Governo e religião sempre souberam manipular a técnica do prêmio ou castigo para induzir as pessoas a dar a vida por suas causas. Infelizmente, o futuro destas instituições não coincide necessariamente com o interesse da preservação da espécie. Há um consenso de que é preciso conter o crescimento demográfico. Mas o empresariado não se importa ? crescimento zero é péssimo para o mercado. Os governos também não se importam ? a força dos exércitos depende da disponibilidade de recrutas. E, como já disse, os políticos estão mais preocupados é com a próxima eleição.
VEJA- Pelo que o senhor diz seria preciso impor estas mudanças, já que elas não são populares. Mas isto não extinguiria um regime autoritário?
SKINNER- Quando escrevi meu livro ?Além da Liberdade e da Dignidade?, há dez anos, fui acusado de estar descartando os valores mais caros da civilização, propondo a manipulação das massas. Mas isto era uma simplificação grosseira. O que digo é que a satisfação material é um valor perigoso, e as sociedades afluentes foram bem-sucedidas demais em garanti-la. Nas sociedades avançadas, elevou-se o direito individual a valor absoluto ? o direito, por exemplo, de se consumir quanto se deseja, sem interferências, mesmo que estes padrões de consumo sejam em detrimento do meio ambiente e do todo social. Nas sociedades mais avançadas, praticamente acabamos com as formas de controle punitivo. Em educação somos extremamente complacentes, a justiça dá sentenças generosas para criminosos, prisões são consideradas uma afronta à dignidade humana. Acho que houve uma evolução positiva, não estou defendendo a volta da palmatória ou da guilhotina, mas acho que há um exagero neste conceito de direito do indivíduo. Não se trata de abrir mão da liberdade, mas quando se começa a falar em direito dos animais, direito de se andar de motocicleta sem capacete, direito de usar carros poluentes ou direito dos fetos, há sem dúvida um exagero. É o que chamo de ?Libertas Nervosa?.
VEJA- Como assim?
SKINNER- Trata-se de uma comparação com a anorexia nervosa, a doença em que a pessoa, para perder peso, faz uma dieta, mas não consegue parar quando atinge o equilíbrio e continua a dieta até a desnutrição. Não digo que as sociedades afluentes tenham que abrir mão do respeito à liberdade e dignidade individuais, mas que, levados ao extremo, estes valores podem ameaçar a sobrevivência da sociedade como um todo. Se você elege em direito absoluto do indivíduo ter quantos filhos quiser, poluir a atmosfera a seu bel-prazer ou consumir recursos não renováveis no ritmo que desejar, estamos bloqueando nossa possibilidade de promover novas formas de comportamento que garantam o futuro de toda a sociedade. Já sabemos o suficiente sobre o comportamento humano para poder recorrer a estímulos que induzam a mudanças de comportamento necessárias para resolver estes problemas graves que nos desafiam. Mas não faremos nada se ficarmos presos à noção de que isto interfere com a liberdade dos indivíduos.
VEJA- Quando se começa a abrir mão desta liberdade, não há risco de grupos no poder usarem estas práticas de controle sem considerar o bem comum? E quem é que decide qual é o bem comum?
SKINNER- Claro que o ideal seria o príncipe esclarecido de Maquiavel, ou o rei-filósofo de Platão. Mas o problema com estes regimes ditatoriais é que eles bloqueiam o progresso, tendem à estagnação, enquanto sociedades com grau maior de liberdade evoluem mais rapidamente. Não acho que as sociedades marxistas, onde há controle absoluto, sejam mais eficientes - e não gostaria de morar na URSS, porque mesmo que os homens do topo tenham boas intenções, a vida dos cidadãos é desinteressante e cheia de inconveniências. Não acredito que seria preciso uma sociedade fechada, com um grupo manipulando as massas, para promovermos as mudanças de comportamento que defendo. Meu ponto é justamente que seria possível, usando nosso conhecimento sobre o comportamento humano, sensibilizar as pessoas para estes problemas e induzi-las, de forma positiva, a mudar.
VEJA- A educação seria um caminho?
SKINNER- O sistema educacional seria, sem dúvida, o ponto onde atacar. Mas não tenho qualquer esperança. O sistema educacional atual é o grande escândalo de nossa civilização, totalmente ultrapassado. Através da ciência do comportamento, desenvolvemos a educação programada, por exemplo, em que os estudantes usam materiais projetados especialmente para recompensar o avanço de cada um na aprendizagem ? e torná-la mais rápida e interessante. Alguns setores pioneiros a adotam, mas, quase trinta anos depois, a maioria das escolas ainda resiste à idéia de educação programada, alegando que ela é massificante, ou que não respeita a individualidade e originalidade de cada indivíduo. Não vejo como educação programada seria mais massificante do que a televisão, por exemplo, mas isto ilustra bem como estamos presos a conceitos às vezes ultrapassados.
VEJA- E o senhor não vê qualquer possibilidade de mudança?
SKINNER- Se eu tivesse que prever o estado da sociedade daqui a 100 anos, se sobrevivermos a um desastre atômico, diria que haverá infelizmente um único governo autoritário ? porque a esta altura este tipo de regime terá se tornado imperativo para controlar o crescimento populacional, a poluição e o consumo de recursos não renováveis. O Lamentável é que temos tecnologia e conhecimentos suficientes sobre comportamento para construirmos um mundo diferente, mas não somos capazes.
VEJA- Para muitas pessoas, Skinner e behaviorismo, embora já incorporados à ciência, ainda são sinônimos de manipulação de comportamento e possibilidades sinistras. Isso o incomoda?
SKINNER- Eu estou é preocupado com a escalada das armas nucleares, mas não culpo Einstein por isto. Lamento, como todo mundo, que certas drogas pesquisadas com fins farmacêuticos sejam usadas por viciados, mas nem por isso vai defender-se o fim da pesquisa farmacêutica. Não se acaba com os automóveis porque motoristas bêbados os usam para matar. Tudo pode ser usado para fins sinistros e isto vale para a tecnologia do comportamento. O fato é que pessoas habilidosas sempre souberam manipular o comportamento de outras. Só que o faziam intuitivamente, como uma arte. Alguns tinham o talento, outros não. Com o behaviorismo, explicamos como isto se faz.
VEJA- Ultimamente o senhor está popularizando estratagemas para superar os desconfortos da velhice. Até que ponto é possível retardar a senilidade mental?
SKINNER- A velhice é como o cansaço, com a diferença de que você não a elimina tirando férias ou uma soneca. Mas ela não precisa ser necessariamente o fim de qualquer atividade intelectual gratificante. Com este meu novo livro, eu terei publicado seis deles desde que completei 70 anos, o que é uma marca excelente para qualquer acadêmico. Isto foi possível porque, usando os conhecimentos desenvolvidos em laboratórios sobre comportamento humano, eu arranjei minha rotina de forma a que eu possa render tanto quanto possível. O segredo é justamente a lição do behaviorismo, de que nosso comportamento é pautado por reforços positivos ou negativos do meio ambiente. Você age de um modo, e há sempre conseqüências. Se elas são positivas para você, a tendência é repetir o comportamento. O problema é que na velhice somos gradualmente privados de todo tipo de reforço. O segredo é buscar formas de comportamentos que compensem.
VEJA- Por exemplo?
SKINNER- Na velhice não se sente bem o sabor dos alimentos, perde-se o apetite. Muitos desistem de apreciar música porque ouvem mal. Perdem-se os amigos, o sexo já não é estimulante, a aposentadoria elimina os estímulos profissionais e financeiros. Sem todos estes reforços, é compreensível que muitos velhos sejam derrubados pela depressão. É preciso aprender a trabalhar menos horas, perceber quando a fadiga mental interfere, saber então descansar profundamente para que o trabalho, quando reiniciado, seja gratificante.
VEJA- Pode-se usar um aparelho para a perda auditiva. Mas e a perda da memória?
SKINNER- Há pequenos truques que explico no livro para contornar a perda da memória, alguns bem simples. O importante é aceitar a deficiência e achar um jeito de combatê-la. Andar sempre com papel e lápis no bolso, por exemplo, ou um gravador, para registrar na hora todas as idéias antes que elas se percam. Procurar formas de lazer adequadas. Eu gostava de ler Balzac, mas a boa literatura é mais cansativa. Jogos complicados, como o xadrez, também não são adequados. Se tiver a humildade de ler coisas mais simples, na hora do lazer, ou mesmo assistir televisão, pode-se realmente relaxar, para ser capaz, depois, de trabalhar produtivamente algumas horas. É preciso fazer um esforço para experimentar coisas novas, projetar quase cientificamente uma rotina e um estilo de vida que ofereçam estímulos específicos para substituir os que a sociedade e a deterioração física vão gradualmente eliminando.
Fonte: http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=252
>> Nesse link há outra entrevista do Skinner para a Veja (em 1974) : http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=251
>> Para quem gosta de teorias científicas a respeito do ser humano vale à pena ler (mesmo que seja para atirar pedras depois). Principalmente porque se tratam de idéias polêmicas e as coisas polêmicas são bem mais interessantes.
[por "Elfen Queen", às 0:51]
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