::ELFEN QUEEN::

"Don't treat me any different than you would a queen. ..."


"Tão cheia de pudor que vive nua"
(Soneto de Orfeu - Vinícius de Moraes)



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"Tabacaria"

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, e a história não marcará, quem sabe? Nem um, nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim(...)".

(Álvaro de Campos)


"Lucidez perigosa"

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.

(Clarice Lispector)


"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade...sei lá de quê!"

(Florbela Espanca)


"Já não me importo"

Já não me importo até com o que amo ou creio amar. Sou um navio que chegou a um porto e cujo movimento é ali estar. Nada me resta do que quis ou achei. Cheguei da festa, como fui para lá ou ainda irei Indiferente a quem sou ou suponho que mal sou, fito a gente que me rodeia e sempre rodeou, com um olhar que, sem o poder ver,sei que é sem ar de olhar a valer. E só me não cansa o que a brisa me traz de súbita mudança no que nada me faz.

(Fernando Pessoa)


"As Palavras"

"Girar em torno delas, virá-las pela cauda (guinchem, putas), chicoteá-las, dar-lhes açucar na boca, às renitentes, inflá-las, globos, furá-las, chupar-lhes sangue e medula, secá-las, capá-las, cobri-las, galo, galante, torcer-lhes o gasnete, cozinheiro, depená-las, touro, bois, arrastá-las, fazer, poeta, fazer com que engulam todas as suas palavras.

(Octavio Paz)


"Art is Resistance" - Here is one thing the government wants you to forget: You have a voice. How are you going to use it?

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Ao abrir a porta, verifique se o mesmo encontra-se estacionado neste andar
quinta-feira, 20 de março de 2008

Epístola 11 - "A incerteza"

Você demorou. Demorou tanto que pensei que não quisesse mais me ter. Pensei em escrever novamente, pensei em não escrever mais. Pensei tantas coisas. Pensei que tudo isso acabaria na ultima carta, principalmente quando vi que os meses estavam se passando e nenhuma resposta havia chegado.
Você se abriu para mim, eu me abri para você e nós ficamos sem ação. Relendo suas epístolas pude ver a evolução de tudo isso. Estamos vivendo uma troca de papéis. Acredito que é cedo para tal, mas quando decidi começar com tudo isso eu sabia que com o passar do tempo minhas previsões se tornariam cada vez mais incertas.
Sim, eu te ajudei a descobrir muita coisa com minhas apreciações, mas você me ajudou muito mais. Ajudou-me a descobrir toda a humildade que faltava para eu ser mais nobre e menos falível. Você conseguiu isso apenas com o seu silêncio. Ás vezes o silêncio diz mais do que um milhão de palavras e frases bem articuladas.
Desde o começo eu demonstrei que sabia exatamente o que estava fazendo e aonde queria chegar. Mas tenho que admitir que essa não era verdade. Minha segurança era apenas fachada. Eu nunca soube exatamente o que eu queria. Por essa você não esperava, não é mesmo? Nem eu.
Eu não esperava que um dia eu me visse sem saída e tivesse que admitir isso. Mas como eu já disse, a previsão está cada vez mais difícil para nós. Não sou mais eu quem dou as cartas. Não posso mais ditar regras e criar normas.
O mestre agora és tu e eu estou aqui, nua e de pernas abertas para ti.
Possua-me.


A Remetente.


.: Leia as Epístolas anteriores aqui.

[por "Elfen Queen", às 22:21]



segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Epístola 10 - A declaração


"Eu te amo". (O destinatário)


É apenas isso o que você tem a me dizer após tanto tempo? Ou melhor, é tudo isso o que tem a me dizer?
Uma página contendo apenas três palavras. Três palavras e tanto conteúdo. Vindo de você NESTE MOMENTO imagino a força dessas palavras e imagino que elas não são mais tão concupiscentes quanto antes. Estou certa?
Apesar de sentir que estamos na mesma sintonia agora, sua concisão me deixou no vazio, principalmente porque veio depois de vocábulos turbulentos e prolixos.
Confirme ou refute minha hipótese. Seja sincero comigo como sou com você, sincero o bastante como sou ao dizer que tive medo, muito medo de não mais receber uma resposta sua por conseqüência da minha sinceridade.
Agora me coloco em suas mãos.

A Remetente.

[por "Elfen Queen", às 18:12]



quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Epístola 9 - "O embate"

"Não me diga como me sinto. Você não sabe nada sobre mim, envenene-se com sua arrogância e me esqueça. Agora pode me odiar, eu não preciso do seu amor". (O destinatário)

Perplexa com o balde de água fria, mas feliz. Era disso que eu estava precisando. Agora você se mostrou e estamos no mesmo patamar. Eu quero a sua ira, eu quero a sua verdade. Se for isso o que você tem para me dar, eu aceito.
Você tem razão quando me diz que não sei nada sobre você, mas está errado quando diz que eu digo como você se sente. Eu sou apenas interrogação e você até agora foi afirmação.
Você também está certo ao dizer que não precisa do meu amor, mas errado em pensar que vou te odiar. Nunca odiaria a tua sinceridade, pois foi isso que eu busquei até agora.
Pretensão sim, mas arrogância? Talvez... Afinal, tudo é vaidade em mim (e em você também). Você está certo e é isso o que eu tenho para te oferecer. Se não for o bastante para você, rescindimos nosso contrato agora e arcamos com as implicações disso.
Entendo a sua sublevação e concordo com você em algumas coisas. Mas não tente me analisar por esse lado, não estou querendo te usar, não da forma como você descreveu. Use de parcimônia para fazer suas inferências. Os dados estão muito claros e eu fui franca a todo o momento. Se atenha às minhas palavras e só. É a única coisa que você tem de mim. Mas se te dá mais prazer contemplar as flores (ou os espinhos) do caminho mais longo tudo bem. Eu estarei no final da trajetória, te esperando com um balde de água fria e aquela cara de eu avisei, apontando para o atalho.
Nós estamos juntos nisso agora, lembra? Mesmo se acabarmos tudo nesse minuto, estaremos sempre juntos porque de uma forma ou de outra nos transformamos um ao outro e a nós próprios com essa relação.
Obrigada.

A Remetente.

[por "Elfen Queen", às 13:42]



quarta-feira, 26 de setembro de 2007


Epístola 8 - "O chavão"

Eu sabia" Mesmo te achando especial, sabia que mais cedo ou mais tarde você iria se envolver dessa forma. Deixei claro desde o começo que o tipo de relação que almejava ter contigo não era esse.
Você quer uma mulher ou um arrimo? Já vou avisando que não tenho vocação para isso. Não sou nem de longe a mulher dos seus sonhos, aliás, não nasci para ser a mulher dos sonhos de ninguém, não me coloque esse peso.
Não se iluda, pois eu não me deixarei iludir por palavras romanescas. Confesso que é tentador, mas iria estragar tudo. Não deixemos uma relação tão nobre acabar em carne, porque se ela chegar a esse ponto agora, certamente irá acabar em nada.
Existem outras formas de descobrir a fundo alguém e eu estou te oferecendo a mais profunda delas. Estou abrindo cada página de mim para você. Aprenda a me ler e usufrua das experiências sublimes que estamos nos proporcionando. Será que você só é capaz de interpretar a intimidade pelo plano material?
Vamos, eu sei que você é capaz de coisas mais elevadas. Aliás, você já faz isso, você sabe usar caminhos alternativos para chegar ao concreto, você precisou aprender a fazer isso e aprendeu muito bem, por sinal. Essa sua estratégia em lidar com as situações pessoais é mais uma forma de se distanciar? (Estou me referindo ao assunto da minha última epístola). Presumo que sim. O fazer já prova a necessidade e a forma com que é feito já confirma o valor atribuído. Acertei mais uma vez!
Pois bem, use essa capacidade para chegar ao nosso objetivo inicial. Já conheço seu dom maravilhoso de usar a introspecção, não tente me enganar. Não subestime minha inteligência e minha percepção.
O dia em que conseguirmos atingir o clímax intelectual talvez possamos tentar outras formas de interação. Isso não é uma promessa, é apenas uma possibilidade remota, mas garanto que será mais prazerosa se por ventura venha a ocorrer.
Você teve uma grande chance em sua última missiva e a desperdiçou com um texto pobre e clichê. Convenhamos que você não tem vocação para Dom Juan, não por esses métodos. Seu talento vem de outras fontes e é com ele que talvez você consiga me levar para sua alcova.
De qualquer forma, obrigada por alimentar a minha auto-estima e minha libido. Vou pensar em você enquanto me tenho esta noite.
E sim, isso foi uma provocação!

A Remetente.

[por "Elfen Queen", às 20:05]



domingo, 9 de setembro de 2007

:: Epístolas Review ::

(para quem pegou o bonde andando, sentou na janela e ainda deu tchauzinho)


Epístola 1 - O encontro

Não me pergunte como, mas achei seu endereço. Nunca me imaginei nessa situação, mas já que me encontro nela tenho que aproveitar a oportunidade de sanar os meus desejos. Eu posso ser mais uma na sua vida, mas não me importo com a impressão que te causarei. Aliás, chegar até aqui já é um atrevimento muito grande para alguém que se importaria com a opinião do outro.
Não te vejo como um ser inatingível, tampouco como um semi-deus. Não acredito que a atração que você exerce sobre mim irá durar pra sempre e não acredito que essa carta irá mudar alguma coisa pra você. Não acredito em nada, só estou aqui.
O que me faz estar aqui presente, através das minhas palavras, não são as qualidades que enxerguei em você nem as coisas que temos em comum, mas os seus defeitos e as nossas diferenças. Curiosamente, sempre sou atraída pelos defeitos das pessoas e pelas diferenças. Vejo-me como alguém que aponta e ajuda a corrigir os defeitos das pessoas. Mero engano. Na ânsia de corrigi-los acabo me perdendo. Mas esse sentimento de desafio e fracasso é o que me atrai. Quando ele acaba, acaba a atração. Dessa forma, não me atraio pelas pessoas, nem pelos seus defeitos, mas pelo prazer de tentar ser ?Deus? para alguém, mesmo que seja só um pouco, mesmo que fracassando. Sou uma egoísta, uma abusada. Mas é exatamente isso em mim que atrai as pessoas. E cada vez mais minha pretensão é reforçada, porque as pessoas precisam dela.
Penso que você e os seus defeitos me proporcionariam esse prazer. O prazer de me descobrir pelo prazer. Não sei exatamente o que quero com você, mas sei que existe uma atração que me intriga. E como adoro ficar intrigada... Adoro sentir raiva, adoro ser surpreendida, adoro sentimentos contraditórios e você me faz senti-los.
Sem mais delongas, vou ao assunto que me trouxe aqui. Quero te propor um trato. Você me oferece esse prazer e eu te ofereço minha pretensão. Pense nisso, talvez você precise dela.
Como eu disse, estou mais preocupada comigo e com os meus desejos do que com o que você pensará de mim. Mas se eu puder satisfazer o desejo de alguém, meu desejo aumenta. Independente da sua resposta (se ela existirá ou se chegará até mim) acabei de satisfazer um desejo com essa missiva e isso já me excita. De qualquer forma, obrigada por me proporcionar essa satisfação, mesmo que de forma passiva.
Se essa carta mudou alguma coisa para você me responda. Se não, não se dê ao trabalho. Se não quiser dizer o que eu quero que você diga, então não responda. Se é para ser assim, deixemos que esse prazer acabe por aqui e seja apenas meu.

A Remetente.

Epístola 2- A reação

Não esperava sua resposta, principalmente pelo tempo decorrido depois da primeira carta. Confesso que cheguei a me preocupar com a impressão que lhe causei e a me arrepender. Mas foi só por um instante.
Vejo que causei o mesmo ?estranhamento? que você me causa. Que bom. É um começo. Precisamos desse ?estranhamento? para começar e manter nosso enlace ou o que quer que seja essa nossa relação. Quando acabar o estranhamento, acaba a relação. Ou não... quem sabe?
Bem, não vou me ater ao futuro. Vou me preocupar apenas em tirar as dúvidas que te cravei. Está aí minha primeira tarefa no nosso trato (posso considerar sua carta como uma aceitação dele, não?).
Percebi que você não entendeu direito minha intenção e que me respondeu apenas porque queria entendê-la. Não estou brincando com você, estou querendo apenas uma relação de troca. Nada além do esperado para uma relação humana. Você não sabe como tenho prazer em saber que te causei tamanho impacto. Não esperava ser a causa última da sua insônia.
Não há nada para ser entendido sobre mim, não sou uma louca ou uma infeliz. Sou alguém que procura o prazer em coisas aparentemente sem importância ou improváveis. Sabe, isso é um sinal de inteligência, já que a concorrência diminui, pois todos procuram o prazer nas mesmas coisas. Pobres almas! Até hoje não encontrei ninguém que pudesse concorrer comigo nesse sentido. Posso te ensinar a apreciar tais coisas se assim o quiser. A menos que não queria ser meu concorrente pelo prazer!
Outra coisa, não tente ser racional demais ou tirar conclusões precipitadas sobre mim e sobre minhas intenções, apenas sinta o que te faço sentir. Sinta e se atenha apenas a esse sentimento, seja ele qual for. Leia e releia minhas palavras. Depois sinta. Faça isso quantas vezes achar que for preciso, quantas vezes seu desejo pedir. Não traia os seus desejos. Estará traindo a si próprio. E não se esqueça de observar.
É só isso o que tenho pra você por enquanto.
Espero resposta.

A Remetente.

*Ps: Desculpe-me pela demora em enviar esta carta, já que a escrevi assim que recebi sua resposta. Quis causar-lhe angústia. É mais gostoso. Fiquei imaginando sua ansiedade e desespero. Desculpe-me mais uma vez pelas noites mal dormidas.

Epístola 3- O vínculo

Parece que estamos começando a nos entender e espero sinceramente que você não tenha mandado alguém me investigar ou rastrear meus passos. Iria ser tão frustrante e tolo da sua parte!
Não esperava que você se abrisse tanto pra mim na última carta e não esperava que você tivesse sentido tão bem o estranhamento que te causei. Chego a pensar que é você quem está jogando comigo. Mas sabe que não seria de todo ruim? Ás vezes eu até que preciso ser um pouco domada. Pense nisso.
Eu realmente fico admirada com a sua sensibilidade. Como você pegou rápido minhas intenções. Saber que estou te inspirando é algo excitante pra mim e isso vai tornar nossa relação bem mais intensa.
Quanto ao que você me respondeu, não foi surpresa nenhuma, sabe? Eu sempre soube, mesmo à distância. Digamos que eu tenha captado seu estado de espírito.
Entretanto, uma coisa que me preocupou foi o fato de você ter dito que está excessivamente entusiasmado com tudo isso. Tome cuidado. Sei de sua facilidade em adquirir vícios e compulsões (conseqüência mantida por toda uma história de vida também). Não se deixe escravizar por essa nossa relação de ?liberdade?. Você sempre faz isso, não é? Sempre se prendendo pra se libertar. Eu diria que se trata de uma fuga constante e recorrente. Mas fuga de quê? Você sabe melhor do que eu.
Pense nisso também.

A Remetente.

Epístola 4  -  A verdade

Como assim você não sabe? Eu tenho certeza de que sabe por que e do que você foge.
Aceite o fato de que as coisas não são estáticas, aceite o paradoxo e a contradição. Esse controle excessivo de tudo é prejudicial e eu sei do que estou falando, também não é fácil para mim. A racionalidade e a inflexibilidade em demasia nos fazem perder o controle que tanto buscamos.
Pare de se lamentar, ninguém suporta isso, nem você. O mundo não te odeia, o mundo é apenas indiferente a você. Por que você se preocupa tanto com um mundo que não te dá a mínima? Seja indiferente a ele também, oras!
Acho que hoje eu já disse tudo o que você poderia agüentar. Veremos se eu agüentarei a sua resposta.

A Remetente.

Epístola 5 - A nudez 

"É assustadora a forma como você me lê. Agora tudo parece mais claro para mim". (O destinatário)

Eu leio você?
Sim, eu leio. Mas confesso que gostaria de te dissecar, de descobrir cada parte de você de forma molecular, o que seria impossível, já que a minha pretensão não chega a tanto e meu senso de realidade ainda está em boas condições de uso. Ainda bem, pois isso seria um sinal (a mais) de insanidade. Desse modo vou procurar te explorar somente. Sabe, acho que essa é uma forma de explorar a mim mesma pela comparação. Assim como você, admito que essa experiência está me ajudando muito. Mas era esse o propósito do nosso acordo, não?!
A última carta foi sucinta (quase um bilhete), mas profunda. Fiquei temerosa em relação às conseqüências dela para você, mas o pior não aconteceu. Fico feliz.
Nossa relação está atingindo um novo grau e atendendo a pedidos desesperados de uma pessoa curiosa e envolvida, chegou a hora de eu me despir (apesar de já estar fazendo isso de forma implícita):

?Mulher, na casa dos 20 anos vividos intensamente com todos os tipos de experiências reais e imaginárias. Infância no mínimo exótica. Não sou o que a mídia pede, mas faço o tipo de pessoas como você. Inconstante; sem vícios; pensamentos grandiosos e teorias esdrúxulas; exigente; impaciente; perfeccionista; reclamo de tudo; impulsiva; megalomaníaca; exagerada; espontânea (uma das minhas melhores qualidades); alterações bruscas de humor; empática; compreensiva; sincera (qualidade adquirida há pouco tempo e em período de experimentação); indecisa (pior defeito); irônica/sarcástica; divertida; maliciosa; teatral; leal; intensa; provocante; abusada; oscilação entre logorréia e laconismo; contraditória - ou melhor, me comporto discriminativamente. Minha mãe diz que eu sou estranha e que não vou arrumar marido.
Consegui fazer da minha desimportância um atrativo. Contudo, o que move a minha existência são os segredos que eu guardo. Segredos trágicos, que são os únicos que conseguem assumir o controle da minha vida e tirar o meu papel ativo dentro dela. Por outro lado, essa tragédia foi um valor atribuído por mim mesma, o que, de certa forma, me configura o um papel ativo. Como é linda a minha contradição!
Resumindo: Sou a pessoa mais insuportavelmente adorável que você já conheceu, acredite?!

Após essa nudez, coloco novamente as minhas vestes - incluindo as máscaras e as defesas ? e espero a sua reação.

A Remetente.

Epístola 6  - O impacto

É impressionante como você se descreveu baseando-se em minha última epístola. A mesma forma, com apenas algumas mudanças no conteúdo e lá estava você. Ás vezes via em você um ?eu? duplicado, outras vezes um ?eu? às avessas, que não deixava de ser um ?eu?.
...Duas personalidades fortes se descobrindo através de uma relação intensa.
Mas chega dessa introdução ?pão de sanduíche? e vamos ao ?recheio? da carta: tão prolixo nos predicados e tão breve na parte dos segredos. Por quê? Acho que você não está se entregando totalmente. Não faça da nossa relação um joguinho para se sentir mais excitado. Não perca essa oportunidade, talvez seja a única. Você começou tão bem e se perdeu na parte mais importante. Respeito seu momento, entendo que até agora você não estava pronto para enfrentar certas coisas, mas chegou a hora. Eu te deixei pronto e com o seu consentimento. Se você ainda não conhece os seus segredos (ou se recusa a conhecer), se eles estão guardados tão bem que nem você pode enxergá-los, eu assumirei a tarefa de arrancá-los daí. A sua tarefa é dificultar e transformar isso em uma experiência dolorosa ou facilitar e transformá-la na coisa mais sublime que você já vivenciou. Escolha.
Ah...existe a terceira opção também, mas eu tenho que admitir que você me deixaria muito frustrada se resolvesse acabar com isso agora. Lembre-se de que você assumiu um compromisso comigo e com você mesmo. Mas você escolhe e eu me viro com as conseqüências que a sua escolha trará para mim. Se escolher uma das duas primeiras opções eu posso te ajudar.
Já ajudando: O que você tem aí dentro que você guardou tão bem e agora não consegue encontrar? Aquilo que aparece quando você se sente livre e se esconde novamente quando você insiste em viver uma vida que não é a sua? Aquilo que quando sai, é colocado de volta por você porque os outros não aprovam? Por que será que eles não aprovam? O que incomoda nesse seu outro ?eu?? Você acha que esse ?eu? vai me incomodar? Como pode saber se não mostrar?
Não é para mim que você vai se revelar, mas para você mesmo. É isso que você quer?
Se a resposta for sim, nós estamos juntos nisso agora.

Espero (temerosa) por uma resposta.

A Remetente.

Epístola 7 - A reflexão

"Quando eu penso que te agradei você me joga um balde de água fria. Como pode ir tão fundo e violentar minha alma dessa maneira?" (O destinatário)

Você não tem que me agradar, não precisa fazer isso. Ou pelo menos não precisa fazer força para isso. Eu gosto de você mesmo que me contrarie, mesmo que não diga o que eu quero ouvir. Assim é mais excitante. Você se lembra do que eu disse na primeira carta sobre os seus defeitos? Continuo com a mesma opinião.
O balde de água fria faz parte do nosso contrato, tenho muitos deles aqui ainda e espero receber alguns de você também. Será importante.
Quanto ao ?violentar a minha alma?, não sou eu quem o faço, mas você é quem permite. Ou, pelo menos, conduz as coisas de tal forma que qualquer verdade tenha esse poder. Oh céus, quanta sensibilidade! Só precisamos direcioná-la para o lado certo.
Gostei da sua última carta. Outra pessoa já teria me mandado pastar. Você não, você está realmente empolgado e empenhando para que tudo isso funcione. Admiro a sua determinação e vontade de ir além do superficial. Entretanto, percebo as suas dificuldades.
Se conhecer não é nada fácil, mas quem consegue pode viver experiências muito mais lúcidas e maravilhosas. É só aprender como. Por mais que você se esforce, ainda sinto uma resistência da sua parte. Não estou me referindo a nenhum mecanismo de defesa, longe de mim querer fazer isso com a nossa relação, mas me refiro a falta de conhecimento seu sobre como fazer. Também não é sua culpa, só quero dizer que talvez você nunca tenha aprendido ou tenha tido oportunidade para isso. Chegou a hora.
Não é vergonha nenhuma admitir erros, pedir desculpas, expor sentimentos ? sejam eles bons ou ruins. É apenas difícil para quem enxerga isso como fraqueza humana. Eu não vejo dessa forma. Para mim, esses comportamentos exprimem o mais alto grau de consciência (de si e do mundo) na medida em que manifestam sinceridade e abertura para uma intimidade consigo e com os outros. A intimidade é algo que o ser humano mais busca e, ao mesmo tempo, é algo do qual ele mais foge. Por que será? Você já pensou nisso?
Eu pensei e acredito que seja algo construído historicamente. Mas qual a sua função? Seria uma forma de fazer com que o ser humano se afaste de si mesmo, afastando-se assim dos outros a fim de tornar o conhecimento e consciência da realidade concreta mais difícil e manter todo o processo de ideologia e alienação? Tornar algo natural do ser humano em algo do qual ele sinta vergonha e insegurança em fazer é realmente uma boa e conhecida estratégia, não é?
Quanta profundidade! Transformar dramas pessoais em universais é algo fabuloso, concorda? Entretanto, não nos afastemos do foco. Toda essa ?masturbação mental? serve para pensarmos sobre nossas concepções a respeito de coisas tão simples e necessárias as quais deturpamos (ou deixamos deturpar). E as conseqüências disso nós sabemos quais são e quem sofre por elas.
Será que você também vive deturpando coisas tão simples?
Sem mais delongas.

A Remetente.





[[ As próximas Epístolas serão postadas em breve ]]

[por "Elfen Queen", às 19:43]